Casa de Madeira
- Vocês prometem mesmo que não contam para meu avô?- O menino disse pelo que parecia a décima vez durante aquela tarde. Já era o anoitecer do quarto dia, as duas mulheres haviam conseguido chegar com certo esforço por parte da navegadora.
Convencer a pequena criança a abrir a porta -uma vez que desconfiavam de que era um Luffy - Não foi difícil, Nami se ofereceu a cozinhar algo para ele e no instante seguinte a entrada se abriu revelando a figura de um menininho de não mais de quatro anos que teve que colocar um banquinho para conseguir girar a maçaneta.
Não demorou muito para elas perceberem que a essa idade o pequeno ainda não possuía sua Akuma No Mi, na verdade elas hesitaram num princípio, o garoto de fato tinha os mesmos olhos de Luffy, ainda mais inocentes, contudo, não tinha sua pequena cicatriz embaixo do olho direito ou sequer seu característico chapéu de palha. O olhar animado era o mesmo, porém, o que deu segurança as mulheres.
Ao entrar, encontraram uma decoração inexistente, composta apenas de móveis de uso corriqueiro. O garoto se apresentou apenas como Luffy, com o enorme sorriso que já conheciam tão bem.
Enquanto de fato Nami preparava algo para comerem, por que tinham que esperar Sabo de qualquer forma e os dois Luffy - O bebê incluído - pareciam famintos. A criança mostrou a casa para a curiosa arqueóloga.
Embora não havia muito o que mostrar nesse lugar que carecia de móveis e algum conforto, além de uma única estante de livros que possuía uma coleção de guias ilustrados de armas de fogo e outro sobre besouros. Ambas pareciam muito antigas e desgastadas.
No entanto, o que chamou mais a atenção de Robin foi um único quarto trancado.
"-O que tem lá dentro?" - Ela havia perguntado durante o tour ao ver que o menino tinha passado direto pela porta.
"- Eu não sei" - Ele havia respondido. "Vovô não me deixa entrar"
Ao tentar usar sua habilidade, tudo que pode ver foi um cômodo completamente em branco. Deduziu que isso significava que este Luffy realmente nunca tinha visitado o lugar.
-... Estou muito feliz!! Eu não recebo muitah visita! - Cantarolava o menino contente brincando com os talheres da mesa. Para a surpresa das jovens, nessa idade ele não possuía um apetite tão grande. - Makino vem bastante quando num tá ocupahda e o pefeitoh também.OOOh e o senhor Vento!!
- Mas três pessoas, além de seu avô, não são muitas visitas? - Perguntou Nami com graça.
- Três haaaã, sei lá! Eu não sei contah shishishi
A navegadora apenas balançou o cabelo do pequeno menino, que agitou as pernas contente sobre a cadeira alta da mesa.
Mas outra coisa havia chamado a atenção de Robin.
-Senhor Vento? - Sussurrou
- Deve ser algum apelido que ele deu a alguém
- Não é naaaão! - Agitou-se ao ouvir o murmurar das duas - As vezes, quando estou sozinho, toooooda a casa começa a bater, as janelah a balanta...E então o vento passa por tooooda a casa! Shishishi ele é engraçado! As vezes até derruba as coisas! Meu avô diz que eu sou desatadoh quando eu derrubo algo, então ele debe ser também! Por isso eu dei um nome pra ele!
- E por que Senhor? - Nami entrou na brincadeira, se divertindo com a imaginação da criança, apoiando o rosto em suas mãos - Porque não "senhora vento"?
- Fácil! Ele não tem cabelo, as mulheres sempre tem cabelo! - Declarou com determinação - Então ele é homem como o vovô e o pefeitoh!
- E como você.
- Não, eu sou um meninoo! Homens saaaaão velhos de barbaaa!
- Mas o vento tem barba?
-.....AHHH VOCÊ TEM RAZÃO!
A mais nova apenas ria da palhaçada da pequena criança que tentava imitar uma barba com suas mãos, por sua vez Robin apenas escutava a conversa pensativa.
Já era madrugada do quinto dia quando o menino de quatro anos caiu no sono, junto ao bebê que era estranhamente quieto. Nami, que teve que brincar com ele até adormecer, estava cansada sentada numa cadeira dura da cozinha, resmungando sobre o fato da casa não ter sequer um sofá.
Robin estava vendo a nevasca pela janela.
- Deve ter sido solitário para ele - Comentou Nami - Esse Sabo, não é irmão de sangue, como Ace, não é?
- Sim, eles fizeram um brinde de irmandade
- Um brinde, é? - A navegadora questionou pensativa . - Acho que já ouvi falar de algo assim lá no East Blue...
O silêncio durou mais alguns minutos, até Nami voltar a fazer perguntas, esperar a deixava inquieta.
- Achou algo na casa?
Desviou o olhar da janela, encarando sua amiga.
- Não há muito o que dizer, ela é bem vazia. Porém no segundo andar tem três quartos, um deve ter sido o de Garp, usei minhas habilidades e vi que havia uniformes da marinha dentro dele. O menor que Luffy me mostrou por dentro, era o dele, apenas uma cama e uma escrivaninha com uma foto rasgada.
- Rasgada?
- Sim - Ela pôs a mão no queixo pensativa - Num porta retrato, tinha uma foto velha de Luffy bebê, igualzinho esse que está conosco, com Garp segurando-o em seus braços, sob o ombro dele há uma mão, mas não é possível ver de quem é, pois o resto foi rasgado.
- ...Você acha que pode ser....?
- Dragon, provavelmente, não parecia a mão de uma mulher.
Nami suspirou longamente, deitando-se sobre a mesa da cozinha.
- Essa família do Luffy é muito estranha, não é atoa que ele pensava que não tinha um pai....
A navegadora não falou mais, caindo no sono devido ao cansaço.
Robin ficou sozinha com seus próprios pensamentos, pensando no quarto em branco, que algum dia deve ter pertencido a Dragon ou mesmo a mãe desconhecida de seu capitão, enquanto também se perguntava porque Sabo estava demorando tanto...Até adormecer também, sentada próxima a janela.
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O frio era maior do que tudo que já havia sentido em sua vida. Na verdade, nunca tinha sentido o gelo queimar sua face com tanta intensidade. Sua respiração doía gélida ao tentar entrar em seu pulmão e por mais que tentasse manter sua temperatura alta, sentia que a cada passo que dava ela abaixava mais e mais...Fazendo seu corpo tremer e seus dentes tilintar.
A primeira hora tinha ido bem...Na terceira começou a se sentir cansado, na quinta mal estava conseguindo caminhar.
O combostível para produzir sua chamas, que imaginava ser sua própria energia vital, não era uma força infinita e o cansaço começou a invadi-lo, dificultando a produção de fogo para limpar o caminho pela neve. Sem contar que aumentar sua temperatura corporal requeria mais energia e concentração do que ele imaginava a princípio .
Para piorar, a nevasca apenas havia se intensificado, fazendo com que tudo a sua frente não passasse de um branco sem fim. Era quase impossível saber onde estava agora...
Sabo estava começando a se preocupar.
Sua vista estava embaçando e sentia-se sonolento, enquanto tentava se focar na direção que conseguia sentir a presença de Robin.
- Maldição...- Praguejou, tentando se manter acordado - Eu não posso me deixar vencer...Por algo...Assim...
Encostou-se por um momento numa rocha, socando-a sem haki e mesmo assim facilmente quebrando-a ao meio, tentando produzir um mínimo de dor para conseguir se manter desperto.
- Acorde! Vamos! Luffy precisa de você! Reaja!!
E continuou a caminhar...Até não sentir mais seus pés, até sua temperatura começar a despencar até avistar uma casa de madeira ao longe...Quase arrastando-se até sua porta...
E caindo frente a ela, inconciente...Aos pés de duas botas negras.
- Seu idiota...